Muito mais do que assistentes de palco

Quando pensamos em um espetáculo de mágica, normalmente os olhos se voltam primeiro para o mágico. É ele quem conduz a apresentação, conversa com o público e, em muitos shows, ocupa o papel central daquilo que acontece no palco.

Mas determinadas apresentações contam também com outras pessoas que participam diretamente dos números. Entre elas está aquela que tradicionalmente ficou conhecida como assistente de mágico e que, dependendo da maneira como o artista ou a produção apresenta essa relação, pode também ser chamada simplesmente de partner, ou parceira.

E essa função pode ser muito mais complexa do que parece.

Uma partner pode movimentar objetos, participar de grandes ilusões, interpretar personagens, dançar, interagir com o mágico e com espectadores e, em alguns casos, executar ações indispensáveis para o funcionamento do próprio efeito.

Em determinados espetáculos sua participação é pequena. Em outros, ela se torna uma das figuras mais marcantes do show.

Assistente ou partner?

Em inglês, magician’s assistant é a expressão tradicional para “assistente de mágico”.

partner é simplesmente a palavra inglesa para parceiro ou parceira. Dentro desta matéria, usamos o termo no sentido de parceira de cena. Ele não deve ser entendido como uma categoria profissional oficial, uma graduação ou um título que substitui automaticamente o de assistente.

Não existe uma regra universal determinando que, a partir de determinada quantidade de falas, truques ou responsabilidades, uma assistente “se transforma” oficialmente em partner.

Na prática, as relações de palco são muito variadas.

Há apresentações nas quais a assistente exerce funções claramente de apoio. Em outras, existe uma parceria artística muito mais equilibrada, na qual os dois performers têm importância evidente para a identidade do ato.

Portanto, mais importante do que tentar estabelecer uma fronteira rígida entre os dois termos é observar o que aquela pessoa efetivamente faz no espetáculo.

E o termo “box jumper”?

Existe ainda uma expressão informal encontrada no meio da mágica em língua inglesa: box jumper.

O apelido está especialmente relacionado às assistentes que entram e saem de caixas, cabines e outros aparelhos utilizados em grandes ilusões — desaparecimentos, aparições, transformações, cortes aparentes e diferentes efeitos envolvendo o corpo humano.

O termo não descreve, porém, todas as possibilidades do trabalho de uma assistente. Muitas performers exerceram funções muito mais amplas do que simplesmente entrar e sair de aparelhos.

O que uma partner pode fazer?

Não existe uma lista de funções que se aplique a todos os espetáculos.

Dependendo do show, uma partner pode levar e retirar objetos do palco, posicionar equipamentos, participar de ilusões, realizar movimentos previamente ensaiados, dançar, interpretar personagens, interagir com o mágico, auxiliar na participação de voluntários ou desempenhar funções técnicas dentro de determinados efeitos.

E uma coisa que o público nem sempre percebe é que algumas dessas tarefas aparentemente simples podem exigir bastante precisão.

A atriz, comediante e pesquisadora Naomi Paxton, que trabalhou como assistente de mágico, já descreveu como aprendeu durante essa experiência a utilizar movimentação, postura, olhar e presença no palco para influenciar a atenção dos espectadores.

Em determinados momentos, a assistente precisa ser percebida. Em outros, pode realizar uma movimentação que ajuda a levar os olhos da plateia para outra região do palco.

Segundo Paxton, ações que parecem espontâneas podem ter sido cuidadosamente planejadas e cronometradas.

Isso demonstra por que é equivocado imaginar que toda assistente esteja apenas “ao lado” da mágica.

Em alguns números, ela participa diretamente da construção da ilusão.

Timing, ensaio e segurança

Determinadas ilusões dependem de movimentos realizados no momento correto.

Isso pode envolver sincronização entre os performers, equipamentos, música, iluminação e outros elementos da apresentação.

Consequentemente, uma pessoa que participa tecnicamente desses números precisa conhecer suas marcações e aquilo que deverá fazer.

Também existem ilusões nas quais a segurança exige procedimentos específicos e ensaio adequado.

Mas é importante não generalizar: nem toda partner trabalha com equipamentos complexos, nem toda partner participa de números fisicamente exigentes e nem toda apresentação envolve o mesmo nível de risco.

Tudo depende do repertório.

Quando a partner também é personagem

Uma partner não precisa necessariamente ser atriz, bailarina ou comediante.

Mas ela pode ser.

Em alguns espetáculos, a interpretação transforma completamente a importância dessa pessoa dentro do show.

Um dos melhores exemplos é Penny Wiggins, que trabalhou durante muitos anos com The Amazing Johnathan.

Amazing Johnathan tornou-se conhecido por uma mistura bastante particular de mágica e comédia, com humor bizarro, elementos de choque e efeitos visualmente macabros.

Penny Wiggins interpretava Psychic Tanya.

A própria história profissional publicada no site oficial de Amazing Johnathan conta que ele conheceu Penny em 2001 nos bastidores do Comedy & Magic Club, em Hermosa Beach. Penny era atriz e comediante. Depois de assistir a uma apresentação dela e gostar de sua habilidade cômica, Johnathan a convidou para substituir a performer que anteriormente participava de seu show.

Foi assim que nasceu Psychic Tanya.

A partir daí, Tanya passou a funcionar como uma personagem do espetáculo. Havia interação, interpretação e comédia entre os dois.

Nesse caso, estamos muito longe da imagem de alguém que simplesmente aparece para entregar uma varinha ou retirar uma caixa do palco.

A partner fazia parte da própria dramaturgia da apresentação.

Partner ou alguém da plateia?

A participação do público é uma ferramenta muito tradicional da mágica.

Chamar um espectador ao palco pode criar proximidade, espontaneidade e uma dose de imprevisibilidade que combina perfeitamente com determinados efeitos.

Mas um voluntário e uma performer previamente ensaiada oferecem possibilidades diferentes.

Quando um número exige marcações, coreografia, interpretação ou ações técnicas específicas, trabalhar com alguém que conhece previamente a rotina permite construir coisas que não poderiam ser exigidas de um espectador escolhido naquele momento.

Isso não significa que uma opção seja melhor do que a outra.

São recursos diferentes.

Um espetáculo pode ter números realizados apenas pelo mágico, outros com participação da plateia e outros com integrantes de seu próprio elenco.

A escolha depende da proposta de cada efeito.

Uma partner fixa ou diferentes performers?

Também não existe uma fórmula única para organizar uma equipe.

Alguns mágicos constroem parcerias duradouras com a mesma pessoa. Outros trabalham com elencos maiores, nos quais diferentes performers participam de diferentes momentos do espetáculo.

Uma parceria longa pode criar grande familiaridade entre os artistas e fazer com que aquela pessoa também se torne reconhecida pelo público como parte da identidade do show.

Já uma produção com várias performers pode distribuir as participações de acordo com as necessidades de cada número, com suas diferentes características artísticas e técnicas.

A questão dos segredos também merece cuidado.

Não é correto afirmar que mágicos necessariamente utilizam diferentes partners com a finalidade de impedir que uma única pessoa conheça todo o repertório.

O que podemos afirmar é que existem casos nos quais o conhecimento dos métodos é fornecido conforme a necessidade de cada performer.

Naomi Paxton, por exemplo, relata que, durante os anos em que integrou uma dupla de mágica, algumas técnicas lhe eram explicadas apenas quando precisava conhecê-las para realizar determinado número.

Isso comprova que esse modelo existe.

Não significa que todos os shows funcionem assim.

Cada produção estabelece sua própria organização.

Penny Wiggins e Amazing Johnathan

Penny Wiggins é um ótimo exemplo de uma performer cuja participação se tornou fortemente associada a um espetáculo.

Psychic Tanya não era apenas uma pessoa realizando tarefas técnicas.

Sua personalidade, suas reações e o contraste cômico com Amazing Johnathan faziam parte da experiência oferecida ao público.

Isso mostra uma das possibilidades mais interessantes da função: a partner pode deixar de ser percebida apenas como alguém que “ajuda” o mágico e passar a ser uma personagem reconhecível por mérito próprio.

Debbie McGee e Paul Daniels

Outro exemplo extremamente conhecido é Debbie McGee, que trabalhou durante décadas com o mágico britânico Paul Daniels.

Debbie tinha formação em dança e havia integrado o Iranian National Ballet antes de trabalhar com Daniels. Os dois começaram a trabalhar juntos em 1979.

Ela participou regularmente de The Paul Daniels Magic Show, programa exibido pela BBC entre 1979 e 1994, e tornou-se extremamente conhecida do público britânico.

Daniels costumava apresentá-la como “the lovely Debbie McGee”, expressão que acabou ficando associada à sua imagem pública.

Em 1991, quando o tradicional The Magic Circle passou oficialmente a admitir mulheres, Debbie esteve entre as mulheres que ingressaram na entidade naquele período.

Sua trajetória é particularmente interessante porque sua carreira não ficou restrita ao papel de assistente. Ela também aprendeu e apresentou mágica e construiu uma carreira própria no entretenimento.

Nani Darnell e Mark Wilson

Nos Estados Unidos, outra parceria marcante foi a de Nani Darnell Wilson e Mark Wilson.

Mark Wilson tornou-se uma figura importante na popularização da mágica pela televisão americana, e Nani participou de suas produções e apresentações durante décadas.

O próprio site oficial mantido pela família Wilson descreve Nani como parceira de Mark durante toda a vida, dentro e fora dos palcos, e registra sua participação em um número enorme de ilusões.

Em um caso como esse, a partner não aparece apenas em um efeito isolado.

Ela faz parte da própria história artística construída pelo mágico.

Pamela Hayes e The Great Tomsoni

Existe ainda um exemplo especialmente interessante para entender a importância da interpretação.

O mágico Johnny Thompson apresentava o personagem The Great Tomsoni, uma paródia dos mágicos extremamente sérios e elegantes.

Sua esposa e partner, a atriz e comediante Pamela Hayes, interpretava a assistente de maneira propositalmente entediada e atrapalhada.

Aquilo era personagem.

A descrição preservada pela Universidade de Nevada, Las Vegas, explica que Pamela levava ao extremo a interpretação da assistente entediada dentro de The Great Tomsoni and Company.

Portanto, aquilo que poderia parecer simplesmente uma assistente pouco interessada no número era justamente parte da piada.

Sem a interpretação dela, a dinâmica cômica do ato seria diferente.

The Pendragons: uma parceria construída para ser igualitária

Talvez um dos casos mais claros de rejeição ao modelo tradicional de “mágico e assistente” seja o de Jonathan e Charlotte Pendragon.

Os dois ficaram conhecidos profissionalmente como The Pendragons.

Em reportagem publicada pelo Los Angeles Times em 1990, Jonathan explicou que desejava tornar Charlotte mais do que uma simples “assistente bonita” e que passou a construir o repertório em torno de uma parceria mais equilibrada.

Charlotte possuía formação e habilidades físicas próprias, e essas capacidades foram incorporadas ao desenvolvimento das ilusões.

Uma reportagem de 1993 sobre a dupla resumiu a proposta de maneira ainda mais clara: os Pendragons eram apresentados como uma equipe, e não como um homem e sua assistente.

O próprio Jonathan explicou naquela ocasião que muitos números eram concebidos levando em consideração as habilidades de Charlotte e que essa era justamente a razão para o ato se chamar The Pendragons, e não “Jonathan and Company”.

É um excelente exemplo de como a relação entre duas pessoas em um show de mágica pode ultrapassar completamente a divisão tradicional entre protagonista e assistente.

Adelaide Herrmann: da assistência ao protagonismo

A história da mágica também oferece exemplos de mulheres que começaram participando do trabalho de outro mágico e posteriormente assumiram o protagonismo.

Um dos casos mais importantes é o de Adelaide Herrmann.

Ela trabalhou ao lado de seu marido, o célebre ilusionista Alexander Herrmann, no final do século XIX.

Depois da morte dele, em 1896, Adelaide continuou trabalhando com mágica e assumiu papel central em sua própria carreira.

Ela realizou turnês e apresentou grandes ilusões, tornando-se conhecida como “Queen of Magic” — a Rainha da Mágica.

Sua trajetória ajuda a mostrar por que a palavra “assistente” não deve ser confundida com falta de capacidade artística ou conhecimento técnico.

O papel ocupado por alguém em determinado momento de uma carreira não define necessariamente até onde essa pessoa pode chegar.

E os segredos da mágica?

Quando uma performer participa diretamente do método de uma ilusão, evidentemente pode precisar conhecer informações que não são compartilhadas com o público.

Quanto ela precisa saber depende da função que exerce.

Em determinadas produções, uma pessoa pode conhecer apenas os procedimentos necessários aos números dos quais participa. Em outras, uma partner de longa duração pode estar profundamente envolvida em diferentes partes do repertório.

Por isso, também não existe uma regra universal dizendo quanto uma assistente ou partner “pode” saber.

Essa relação depende da equipe, do número e do grau de envolvimento de cada profissional.

Quando métodos secretos são compartilhados dentro de uma produção, a confiança entre as pessoas envolvidas naturalmente se torna parte importante do trabalho.

E a aparência?

Ao longo do século XX consolidou-se fortemente na cultura popular a imagem da “glamorous assistant”: normalmente uma mulher com figurino chamativo acompanhando um mágico homem.

Esse modelo tornou-se um verdadeiro estereótipo visual da mágica.

Mas um estereótipo não é uma regra profissional.

Não existe uma aparência universalmente obrigatória para exercer essa função.

O que existe são necessidades específicas de cada espetáculo.

Um show pode pedir elegância clássica. Outro pode trabalhar com comédia. Outro pode utilizar uma estética sombria. Outro pode exigir figurinos ligados a determinado personagem ou período histórico.

Também existem ilusões cuja construção pode impor determinadas condições físicas à pessoa que participa delas.

Isso, porém, é uma característica daquele número específico — não um padrão que possa ser aplicado a todas as partners.

Portanto, presença de palco não deve ser confundida com a necessidade de seguir um determinado padrão de beleza.

A imagem precisa funcionar para aquele espetáculo.

O que faz uma boa partner?

Também aqui não existe uma fórmula universal.

Uma performer que participa de números coreografados pode precisar de excelente consciência corporal.

Uma partner de comédia pode depender muito de interpretação e timing cômico.

Alguém envolvido diretamente em grandes ilusões pode precisar dominar com precisão determinadas marcações.

Outra pessoa pode participar de um show principalmente por meio de atuação e interação com o público.

Carisma, presença, concentração e capacidade de trabalhar em equipe podem ser extremamente importantes, mas a importância de cada característica varia conforme o papel.

Talvez a maneira mais segura de resumir seja esta: uma boa partner precisa ser capaz de executar com qualidade aquilo que o espetáculo exige dela.

E isso pode significar coisas completamente diferentes de um show para outro.

O que uma partner não deve fazer?

Também seria incorreto criar uma lista universal de proibições.

Não existe um código mundial definindo o comportamento de todas as assistentes de mágicos.

Existem, porém, limites estabelecidos pela própria produção.

Se um número depende de marcações técnicas, é preciso respeitá-las. Se determinada ilusão envolve procedimentos de segurança, eles precisam ser seguidos. Se existem informações confidenciais compartilhadas pela equipe, sua preservação deve fazer parte do acordo entre os profissionais envolvidos.

Da mesma forma, aquilo que pode ou não ser improvisado depende do espetáculo.

Em um número cômico, o improviso pode ser desejável. Em uma grande ilusão tecnicamente sincronizada, mudar uma ação sem combinação prévia pode ser inadequado.

Mais uma vez, não existe uma regra única.

Existe o funcionamento de cada produção.

Muito mais do que “alguém que ajuda o mágico”

A história da mágica mostra que a expressão “assistente de mágico” pode abrigar trabalhos extremamente diferentes.

Há performers que aparecem durante poucos segundos.

Há pessoas que participam apenas de algumas ilusões.

Há partners que interpretam personagens.

Há artistas envolvidas diretamente na mecânica de determinados efeitos.

Há duplas nas quais os dois integrantes são apresentados como parceiros equivalentes.

E há casos de pessoas que começaram como assistentes e depois construíram sua própria carreira como mágicas.

Por isso, talvez a melhor pergunta não seja simplesmente:

“O que uma assistente faz?”

A pergunta mais interessante é:

“Qual é o papel dessa pessoa dentro daquele espetáculo?”

Às vezes, sua função é pequena e pontual.

Em outras apresentações, ela ajuda a definir o ritmo, a estética, a comédia, a dramaturgia e até o funcionamento técnico dos números.

E há ocasiões em que a parceria se torna tão importante que é difícil imaginar aquele espetáculo da mesma maneira sem ela.

Quando isso acontece, a partner não está simplesmente acompanhando a mágica.

Ela também faz parte dela.

Mr. Bright

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